História de Baixa Visão!

Sou Renato D’Avila Moura, natural de AraRenato com microfonecaju-SE, nasci em 05 de novembro de 1988, com baixa visão, cujo diagnóstico foi distrofia de cones e bastonetes, não tinha visão central, apenas visão periférica. Enxergava o mundo com apenas duas cores, preto e branco. Filho de Alvimar Moura, médico e Inês Moura, enfermeira. Estudei em escola regular, durante todo o tempo. Tive o apoio da família que foi fundamental para o meu crescimento intelectual. A escola tinha limitações na metodologia didática para me repassar os conhecimentos, pois os professores não sabiam como lidar com a minha maneira de ver as coisas e o mundo.

Com o apoio fundamental dos meus pais, que muito fizeram para que eu conseguisse ter acesso ao ensino através da aquisição de tecnologias adaptativas que contribuíram para me incluir nos assuntos lecionados em sala e com um reforço escolar personalizado em casa, aprendi e fui um dos melhores alunos da turma. As tecnologias como: lupas, réguas ampliadoras, aparelho Jordy, de origem Alemã, o Amigo (aparelho de ampliação portátil que auxilia na leitura), me proporcionaram concluir o ensino fundamental, médio e superior.

Optei pela formação em Jornalismo, pois tinha um desejo muito grande de entrevistar pessoas, conhecer suas histórias de vida, ouvir, registrar, opinar e divulgar acontecimentos e fatos do cotidiano que muito me interessava. Fiz minha graduação em Universidade particular, estudava no período noturno, pois facilitava a minha visão, já que durante o dia ela apresentava mais dificuldades devido à luminosidade.

Durante o período da minha formação acadêmica, fiz estágio em uma Organização Não-Governamental (ONG), estágio em uma emissora pública de TV, na área da produção geral, além de estagiar em um jornal impresso de maior circulação na cidade, onde fazia a rádio escuta, para elaboração de pautas. Foram anos de muito trabalho, estudo, autoestima, pois encontrava oportunidades e me sentia muito útil.

Formado há seis anos e com pós-graduação em Marketing e Web-jornalismo, me lancei no mercado de trabalho. Após dois anos desempregado, a primeira oportunidade surgiu na Secretaria de Esporte e Lazer de Aracaju, onde trabalhei na assessoria de esporte por três anos. Lá atuava na cobertura de eventos da Prefeitura, tais como Campeonato Mundial Escolar, corridas tradicionais da cidade, entre outros eventos que me deixavam muito contente em trabalhar fazendo a cobertura junto com a equipe. Há três anos trabalho em uma emissora de TV, afiliada da Rede Globo, sou produtor do Globo Esporte local, onde elaboro pautas e escrevo matérias.

Desde setembro de 2015, iniciei com um blog no Portal G1, intitulado: Blog “Novo Olhar”,  sendo este, uma janela para mostrar o cotidiano de pessoas com deficiências. No blog procuro estimular a sociedade para olhar a causa com um novo olhar, mostrando que possuir uma necessidade especial, não significa ser incapaz. Procuro mostrar exemplos de pessoas que, como eu não se deixaram influenciar pelo desânimo e tocaram suas vidas até encontrarem seus espaços como cidadãos.

Durante a minha vida escolar, passando pela vida profissional, passei por momentos de muitas dificuldades e que por vezes, me levavam a refletir se não era melhor desistir de tudo, não fosse a minha fé em Deus, que é o combustível que me move para a frente. Sofri bulling, preconceitos, apelidos, discriminação, entre tantas outras coisas que prefiro esquecer. Nesse período, minha visão que era baixa, passou a diminuir ainda mais, sofri de uma doença adicional, catarata e fui submetido à cirurgia, com objetivo de melhorar um pouco, fato que com o passar do tempo, não se concretizou, e acabou dificultando ainda mais, pois me levou a usar outro acessório indispensável para quem não enxerga: a bengala.

O uso da bengala foi mais um capítulo em minha vida, pois eu achava que as pessoas não entenderiam e ficariam com vergonha de andar comigo devido o uso deste acessório. A princípio, achei que meus pais não gostariam de me ver usando, fato que não aconteceu, tive todo apoio deles e da minha irmã, Camila Moura, que ainda me auxiliou em plena Avenida Paulista, treinando o uso junto comigo, para que eu conseguisse quebrar o meu próprio preconceito com relação ao seu uso.

A música é outro fator que influenciou meus passos desde os oito anos de idade, quando iniciei com o professor Wolney a aprender tocar teclado; três anos depois iniciei aprendendo violão e minha curiosidade por instrumentos musicais me levou até a descoberta de dons na sanfona, guitarra, contrabaixo, bateria, flauta doce, kulelê e cada vez mais uma novidade acrescenta conhecimentos ao meu gosto musical eclético. Diante de tanta paixão pela música, tive a oportunidade de retornar à Universidade, desta vez pública. Prestei novo vestibular, mesmo tendo que conciliar com o trabalho. Fui aprovado e passei a cursar Licenciatura em Música, atualmente estou no quinto período.

Apesar das rejeições nos tempos de escola, o destino me mostrou a namorada que se tornaria eterna em minha vida e hoje é minha esposa, Simone, uma mulher incrível que me fez encontrar forças para encarar a cirurgia bariátrica, mudança radical que aconteceu após retornarmos de nossa primeira viagem para a Argentina, dias depois do nosso casamento. Às vésperas do meu casamento fui exonerado da Secretaria de Esporte e Lazer de Aracaju e tive uma súbita perda da visão, fato que me abalou bastante.

Para explicar o processo de perda visual, tenho que relembrar um ano bem pesado na minha vida, 2012. Quando a vista começou a embaçar, passei por cirurgia de catarata, que foi feita com sucesso e até obtive certa melhora, passei a enxergar de longe. Embora tudo ficasse mais escuro com passar do tempo. Ainda assim, mantive minha rotina.

Em 2016 as coisas mudaram quando retornei das férias, liguei o computador e iniciei os trabalhos, as letras ampliadas e o contraste da tela de plano de cor preta com letras brancas, parecia entre nuvens, flash de escuridão e luzes brancas. A angústia dos tempos de escola me invadiu naquele instante em que eu não conseguia realizar minha tarefa no trabalho. Eu me perguntava: cadê minha visão? De repente, várias mudanças radicais em minha vida em curto espaço de tempo: As mudanças nos hábitos alimentares após a cirurgia bariátrica, a perda de emprego, para quem já tem dificuldade de oportunidades, sair da casa dos pais e assumir responsabilidades de constituir um lar, a perda súbita do resquício de visão, passando a uma nova condição que implicava diretamente na minha profissão e na minha rotina, pois tinha que reinventar-me.

Os textos ampliados e os recursos de informática aprendidos ao longo da vida, da noite para o dia, não mais me serviam. Tinha que reaprender a viver, como cego, sem sconhecer o Braile. Busca de novos softwares. Óbvio que não suportei a carga e a depressão que nunca me abalara, enfim, tentava me vencer.

Iniciei uma rotina de visitas a psicólogos, terapias alternativas, busca por recursos óticos, consultas diversas que não resultavam em muita coisa em curto prazo.  Testei mais de trinta lentes, óculos e a resposta não vinha. Estava cego. Havia deixado pra trás aquela coragem de encarar meu caminho. A vida que estava iniciando com minha esposa, o sonho de atuar cada vez mais no jornalismo e eliminar qualquer obstáculo provando que consigo caminhar a despeito das limitações impostas pela vida e estímulo da família, dos colegas de trabalho, da minha própria vontade de fazer jus ao meu nome, Renato, que significa renascido das cinzas.

Após alguns meses de licença médica, retornei ao trabalho, enfrentei os medos, tomei os remédios que precisei e desde então, cada dia tem sido uma busca constante, visando escrever os capítulos de minha história. O Blog passou a ser a minha ferramenta de desbravamento. Nesta jornada conheci pessoas especiais, me aproximei da realidades dos meus entrevistados, onde fiquei de frente com muitos exemplos de superação nos diversos setores e profissões de cada canto do País. Através de grupos e contatos de parte dos 45 milhões de pessoas com deficiência, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE Censo 2010), percebi que eu não estava sozinho nesse novo caminho sem visão.

Na busca por “Novo Olhar”, missão que se tornou dever de casa e que faz parte da rotina de trabalho na produção jornalística do Blog, procuro mostrar realidades, exemplos de pessoas com alguma deficiência, cuja história de vida é tema de cada um dos nossos encontros semanais e me serviu para buscar nesses protagonistas do blog, uma fonte de estímulo para seguir em minha própria história.

A mídia e sua relação com casos de pessoas com deficiência ganhou espaço na emissora, nas pautas dos telejornais e me deu espaço para entrevistar pela primeira vez na TV, ao vivo. Hoje, eu tomei consciência de que nós possuímos os cinco sentidos, para que possamos utilizar mais ou menos um ou outro, a depender da necessidade. Percebi que posso desbravar novos caminhos, mesmo sem o sentido da visão, posso dar sentido à vida utilizando a audição, o tato o olfato e até o paladar para dar sabor à vida, alimentar sonhos e estimular outros deficientes na busca constante por seus direitos de cidadãos.  Mais que isso, o sentido da resiliência e da perseverança, fundamentais para tocar a vida em frente.

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