Sacode a poeira pra o São João com “Com Novo Olhar”

São João da gente também é tempo para demonstrar que a pessoa com deficiência de qualquer natureza, pode brincar nos festejos, dançar forró em cima da cadeira de rodas ou driblando as diversidades em nosso Arraiá. E pra aquecer a noite junina tem fogueira, muita dança e comilança, na quadrilha com “Com Novo Olhar”, que você é convidado mais que especial para acompanhar agora!

Escolher o par na hora da quadrilha de escola, tirar uma pessoa com deficiência visual, auditiva, intelectual ou de qualquer natureza pra dançar deveria ser algo normal. “Nos tempos de escola as coreografias da quadrilha junina eram demonstradas por professores e uma colega de classe que sempre era meu par nestes momentos, me conduzia nos movimentos e ensaiávamos para fazer bonito com os demais colegas”, relembro.

Nos momentos de soltar fogos, meus primos sempre me ajudavam pra brincar com cuidado, alguns passos da fogueira. Acendiam os fogos para mim e soltava alguns como estrelinha, via a noite de São João um momento mágico de simplicidade, magia e bastante música. No fim das contas lá estava eu e meus colegas com e sem deficiência, fazendo um São João da gente o momento para sacudir a poeira e aproveitar toda festança na rua em que morava.

Hoje na fase adulta o espetáculo os fogos dos tempos de baixa visão, já não podem ser vistos com tanta nitidez, mas o calor da fogueira, da minha alegria nos festejos juninos ainda permanece com os outros sentidos. ouvir músicas que embalam o coração, sacodir o corpo e arriscar canções na sanfona com minha mãe cantando o tradicional forró pé de serra, resgata valores da busca por inclusão, alegria e magia de xaxado, baião e energia pra abastecer o coração com a festa de São João.

Camisa xadrez, botas e a sanfona são elementos indispensáveis pra compor um São João da nossa gente, no “Pais do forró” como é conhecida Sergipe, a temporada de festejos traz simplicidade, olhar e novos sentidos para uma festa com espaço para o lazer entre todos ditos normais ou com alguma limitação.

No toque da sanfona em “Com Novo Olhar”

Evanilson está em pé e segura a sanfona como se estivesse tocando

Fonte: Arquivo Facebook

Tempo de festejos juninos e nada melhor que viver no “País do Forró”, para entrar neste arraiá em “Com Novo Olhar”. Se tem muita festança fogueira e comilança a dança fica por conta da sanfona de Evanilson Vieira, que apesar da deficiência visual encontra na música uma forma de ganhar a vida.

“Minha vida é andar por este país(…)” (A Vida do Viajante de Luiz Gonzaga). Foi o que fez o sergipano de Simão Dias que saiu de casa aos 12 anos para estudar piano em um instituto para cegos em Salvador. Aos 18 anos retornou à cidade natal onde iniciou as primeiras tocadas juntamente com seus irmãos, em trio pé de serra, seguindo nas bandas Tribus e grupo Toque Musicais, até chegar a Aracaju em 1997, estudar na Oficina de Artes Valdice Teles, onde mais tarde se tornou professor de sanfona, sendo esta adquirida quando trabalhava vendendo alimentos e tocando em eventos que fazia junto com bandas pelo interior de Sergipe.

Com deficiência visual desde o nascimento, nunca desanimou e sempre foi em busca da tão sonhada carreira artística, viajou por várias cidades do país com a banda Xote Baião, onde ficou de 2002 até 2013. Foi à frente da Orquestra Sanfônica de Sergipe, montada desde 2007 até os dias de hoje, que chegou ao palco do programa Altas Horas, da Rede Globo, ao lado do saudoso Dominguinhos e da cantora Claudia Leite.

Levando uma vida simples e feliz com sua profissão de músico, o sanfoneiro teve a oportunidade de passar por quatro procedimentos cirúrgicos oculares tentando buscar uma solução para o glaucoma, doença que o acometia. Aos 43 anos, obteve melhora na visão que proporcionou ao músico enxergar sombras e vultos, e a satisfação de conseguir conferir os cachês que recebia depois dos shows, sem a necessidade da ajuda de terceiros, embora isso só ocorra quando aproxima as cédulas dos olhos.

Evanilson fez do seu talento musical uma oportunidade para outras pessoas com deficiência visual, quando esteve à frente do coral “Terceira Visão”, da Associação dos Deficientes Visuais de Sergipe (Adevise), onde foi presidente por dez anos, realizando eventos e apresentações do coral, fazendo o diferencial na vida de muitos outros deficientes visuais.

– Foi uma luta seguir com minha baixa visão, mas a audição apurada me ajudou a desenvolver a minha carreira musical. Hoje estou à frente da Orquestra Sanfônica. Somos 12 sanfoneiros, três percussionistas e um baixista tocando este projeto que é uma realização de todos nós. Já toquei em bandas de axé com o teclado, toco acordeom, mas o que me faz realizado é estar sempre envolvido no meio musical e garantindo a animação das pessoas independente do instrumento musical – explica Evanilson, em entrevista para “Com Novo Olhar”.